A 72ª La
Vuelta a España terminou. Foram 3,324.1 quilômetros percorridos desde
Nîmes, na França, em 19 de agosto até chegar no último dia 10 de setembro, em
grande estilo, às ruas de Madrid, num belo fim de tarde. O momento agora é de avaliar
o título de Chris Froome, a consagração final de Alberto Contador, além é claro
das surpresas e decepções do último Gran
Tour do ano.
A consagração de Froome
Chris Froome nunca foi (e talvez nunca será) uma unanimidade.
Do Quênia à Grã-Bretanha, de super gregário à principal nome do ciclismo
mundial, sempre conviveu com críticas, suspeitas de dopping (essas mais na conta
dos tabloides) e certa desconfiança quanto às suas reais habilidades, muito em
função da equipe que o cerca. A Sky tem o melhor e mais impressionante elenco
do ProTour, não há dúvidas, e é válido se perguntar se ele teria o mesmo
sucesso em outro time. Mas Froome evolui a cada ano, e reúne todos os elementos
necessários para o sucesso no ciclismo atual: um ITT excelente, boa escalada, boa
descida e, por fim, bons gregários. Os quatro títulos no Tour de France já falam por si só.
Podem não ser conquistas épicas, uma vez que em todas pouco foi ameaçado, mas ninguém
vence a competição mais importante do calendário sem ter talento. Agora, o
título na Vuelta amplia não apenas suas conquistas como o seu lugar na
história. Ganhar dois GTs seguidos na atualidade é algo descomunal. Ele próprio
afirmou que ganhar a Vuelta era mais difícil do que o Tour, em função da
quantidade e brutalidade das montanhas. No caminho para o título, Froome foi
extremamente calculista. Manteve a calma quando foi atacado, respondeu quando
precisava, atacou quando sentiu os rivais no limite, e sobrou no ITT. A Vuelta
agora é um objetivo cumprido. Para o futuro, Froome tem tudo para continuar
buscando mais títulos no Tour de France – e se tornar seu maior campeão de
todos os tempos – para só depois se dedicar à vitória no Giro d’Italia. Sempre
haverá quem questione seu estilo ou os métodos da Sky, porém a qualidade
e a superioridade que ele apresenta sistematicamente é notável.
Espectacular victoria de @chrisfroome en Logroño.— La Vuelta (@lavuelta) 5 de setembro de 2017
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As equipes
Team Sky
Em tese a Sky levou para esta Vuelta o seu segundo melhor
grupo. Em tese, pois qualquer selecionado da equipe britânica é mais forte do
que a concorrência e, principalmente, porque o desempenho da equipe foi, se não
igual, até melhor do que no Tour de France. Sim, na França a Sky liderou também
a classificação por equipes mas, em quantas etapas na Espanha Froome chegou com
três, quatro e às vezes até cinco gregários ao seu lado até o momento decisivo,
sendo que na Vuelta o número de etapas planas é mínimo? Gianni Moscon superou
todas as expectativas e quase venceu em Tomares (foi 2º), Mikel Nieve esteve
num nível muito acima do que havia apresentado no Tour, sendo decisivo para proteger e embalar Froome na subida de
Los Machucos, talvez o único momento em que o campeão esteve claramente em
dificuldades, e Woet Poels não apenas foi o sexto na Geral, não apenas foi o
principal e melhor gregário como poderia ter buscado a vitória no Angrilu.
O destaque: tem muito ainda a evoluir – mais fora da
bicicleta do que pedalando – mas Gianni Moscon demonstrou muita força e
resistência em sua estreia numa grande volta.
Bahrain – Merida
A meta era a camisa vermelha. Mas para uma equipe que está
no seu primeiro ano e ainda buscando uma formação com mais profundidade, o
saldo final é sem dúvida positivo. Vincenzo Nibali pulou o Tour e se preparou
para a Vuelta, foi a principal ameaça de Froome, venceu etapa, atacou quando
sentiu que poderia atacar e lutou até o fim. O segundo lugar no pódio está à
altura do que o Tubarão de Messina pode e conseguiu fazer. A queda na descida
anterior ao Angrilu minou qualquer chance de ataque final, mas ainda assim
provavelmente não teria sido suficiente. Com os reforços que a equipe está
trazendo e se mantiver o mesmo nível de preparação, Nibali ainda poderá brigar
por GC na próxima temporada.
O destaque: Franco Pellizzoti. O veterano italiano foi o
principal apoio de Nibali nas montanhas e aos 39 anos teve uma participação
excepcional. A quinta colocação no mítico Angrilu, puxando seu capitão para
evitar que este perdesse muito tempo em relação aos seus rivais diretos foi
digna de nota, relembrando seus melhores momentos na equipe Liquigás.
Katusha – Alepcin
Longe de ser uma das favoritas a Katusha foi uma das boas
surpresas, subindo de produção ao longo das semanas. Ilnur Zakarin fez o melhor
grand tour de sua carreira, fechando em terceiro na geral. Aos 27 anos, deu
mostras de que pode ir além e seguir com um contender.
Se o downhill ainda é um problema, o russo por outro lado mostrou qualidades no
ITT (foi 4º colocado) e um desempenho muito consistente nas montanhas: foi
segundo na Sierra Nevada, quinto em Los Machucos e quarto no Angrilu (depois de
ser deixado para trás do grupo do líder).
O destaque: ativo nas fugas, Marco Haller teve seus momentos
de destaque, principalmente em Alcossebre, onde foi sexto.
Trek – Segafredo
Froome pode ter sido o campeão, mas o nome da Vuelta foi
obviamente (e merecidamente) Alberto Contador. Em sua última competição, o
multicampeão não poupou energia e premiou o público com exibições fantásticas,
ataques incessantes e o estilo inconfundível. A vitória no Angrilu foi o
encerramento perfeito – tal como um filme em que já se sabe como acabará mas
mesmo assim assistimos e vibramos com o triunfo final. Mesmo não tendo sucesso
em alguns ataques, Contador mudou a dinâmica de várias etapas e simplesmente
não deu sossego aos rivais. O pódio não veio, mas foi um quinto lugar com sabor
especial, de dever cumprido. O agradecimento final à equipe, por respeitar e se
adequar ao seu estilo agressivo, resume bem a participação da Trek, dedicada a
apoiar seu líder em seu último grande ato. Ainda assim, Jarlinson Pantano ficou a desejar, por deixar Contador sozinho antes do esperado em alguns
momentos.
O destaque: por tudo que representa não poderia ser outro
senão o próprio Alberto Contador, eleito o mais combativo da Vuelta.
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Team Sunweb
A Vuelta não começou também para a equipe alemã. Depois do
título no Giro d'Italia e das conquistas no Tour de France (pontos e
montanha), a primeira semana esteve longe do ideal e ainda foi marcada pela
exclusão de Warren Barguil. Ao mesmo tempo, a saída do francês marcou um ponto
de virada para a equipe e Wilco Kelderman assumiu o protagonismo que sempre se
esperou dele, indo bem nas montanhas e brilhando no ITT, onde ficou atrás
somente de Froome. Ao fim,deixou de ser uma eterna promessa para conquistar um
merecido quarto lugar na classificação geral.
O destaque: infelizmente ele precisou abandonar durante a segunda
semana, mas aos 22 anos Sam Oomen mostrou que a Sunweb tem sido muito eficiente
nas suas escolhas e o holandês é mais um jovem talento a ser observado com atenção.
Astana Pro Team
Foram três vitórias e a liderança geral entre as equipes, mostrando
a força do esquadrão cazaque. Evidentemente Fabio Aru ficou muito aquém do
objetivo traçado e em nenhum momento esteve no mesmo nível dos demais
favoritos. A saída do italiano parece iminente, ainda mais depois do mal
explicado episódio de Los Machucos, em que aparentemente a equipe “esqueceu”
de preparar corretamente sua bicicleta. Por outro lado, a ascensão de Miguel
Ángel Lopez, vencedor de duas etapas com soberania, é a garantia de que a Astana seguirá entre as protagonistas do
World Tour.
O destaque: Aos 23 anos, evidentemente ainda existem pontos
a serem trabalhados, especialmente no ITT, mas sem dúvida Miguel Ángel Lopéz é
um candidato natural a brigar por títulos daqui em diante.
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Cannondale – Drapac
A notícia de um possível encerramento da equipe pegou seus
integrantes de surpresa durante a Vuelta, mas acabou sendo uma injeção extra de
ânimo e a Cannondale fez uma Vuelta muito satisfatória. De patrocinador novo e garantida
por mais três anos, faltou apenas uma vitória para coroar a participação dos
norte-americanos, que venceram no Giro (com Rolland Pierre) e no Tour (com
Rigoberto Urán). Michael Woods foi um dos nomes da Vuelta. Aos 30 anos, fazendo
apenas seu segundo GT na carreira (esteve no Giro deste ano), talvez nem o
próprio pudesse imaginar um desempenho tão bom, o que o levou a um excelente
sétimo lugar na geral.
O destaque: Davide Villella foi cerebral para faturar a camisa com bolinhas e
ser o rei da montanha nesta Vuelta. Sem condições de brigar por vitórias em
etapas, o italiano soube escolher com precisão as fugas e coletar
o máximo de pontos possíveis para fechar a classificação no topo.
Nos próximos dias, as avaliações das demais equipes que participaram desta edição da Vuelta.

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